Para qualquer pessoa é muito difícil receber o diagnóstico de câncer. Provoca imenso impacto, pois o primeiro pensamento é a palavra “morte”. Para um homem, escutar de seu urologista que ele tem câncer de próstata, equivale aos mesmos sentimentos que para uma mulher escutar que está com câncer de mama. Só que para a mulher parece ser muito mais fácil de lidar com esta situação do que o homem. Este momento é vivido como uma castração.
A sexualidade, tanto feminina como masculina, está diretamente relacionada com estes órgãos. Abrir mão deles, é sentido como perda do próprio sexo, da identidade de ser homem ou mulher. Nossa identidade sexual é construída desde o momento em que nascemos e vai se desenvolvendo e transformando durante a infância, adolescência, até nos tornarmos adultos e pais. Mas, são os seios para a mulher e a capacidade de obter ereção para o homem os símbolos de serem e se sentirem: mulher e homem.
Dependendo do local em que somos criados, sofremos influências culturais e religiosas. A forma como nossos pais lidam com a própria sexualidade, como passam ou não suas experiências para os filhos, vai contribuir para a formação dos valores atribuídos à sexualidade. Ainda vivemos numa sociedade muito machista, que super valoriza o desempenho sexual masculino. E hoje, não são somente os homens que competem entre si, que se cobram, mas as mulheres se tornaram mais exigentes. Isso por sua vez, só vem reforçar a pressão sobre o desempenho masculino, deixando os homens mais assustados e sofrendo maiores pressões, tanto internas quanto externas. Não é ao acaso que a industria farmacêutica investe milhões em pesquisas com drogas para ereção.
Para muitos homens, perder a potência sexual é o mesmo que perder o sentido de viver. É a morte por antecipação. Muitos desenvolvem ansiedade e/ou depressão, causando profundos efeitos na função sexual, como: falta de interesse, desejo, satisfação e orgasmo. A auto imagem e a percepção da parceira podem ser alteradas pelo diagnóstico de câncer. É um momento difícil e de muitas reflexões. Pode ocorrer a diminuição da auto-estima e iniciar um processo de medo de rejeição pela parceira e tendência de evitar outras.
Para um homem que está vulnerável, qualquer espécie de tensão emocional ou física tende a levar a falha da ereção. E o homem que passa por uma cirurgia desse calibre, tende a estar extremamente vulnerável. Começa a evitar situações onde pode vir a iniciar a intimidade física. Sente-se desajeitado para lidar com a situação e pouco natural por ter de fazer uso de medicações. Como explicar esta situação para uma mulher com a qual ele não tem intimidade? É o que o homem fica se perguntando. Acaba evitando para não sentir-se embaraçado. Não se permite mais fantasiar com uma mulher atraente ou imaginar um encontro sexual. Antes ficava excitado e até mesmo com ereção, ao olhar ou imaginar ser capaz de ter um relacionamento sexual. O sentimento de si mesmo como homem, fica diminuído. Existe uma perda do significado da função perdida, da identidade masculina, sentimento de vazio, perda da auto confiança na capacidade como homem. Não se deixa de ser homem só porque não se tem uma ereção, é um aspecto da vida e uma parte integral de como o homem se vê. É necessário que ele possa redefinir este sentimento. O medo e o constrangimento e as mudanças na maneira pela qual o homem imagina sua interação com uma parceira em potencial, levam-no a questionar sua própria identidade como homem. A sexualidade é vista como uma parte integrante e substancial na definição um indivíduo como homem e um homem que perdeu a função sexual, sente profunda angústia para redefinir-se como masculino.
Ao escutar do médico a necessidade de fazer a cirurgia de próstata, este informa sempre ao paciente as opções terapêuticas e seus efeitos colaterais, principalmente no concernente à cirurgia. Entre os aspectos abordados, o que causa maior impacto, sem dúvida, é a perda da ereção. Escolher fazer a cirurgia é difícil, pois atinge a função sexual, causando muito estresse ao homem e consequentemente, também para sua parceira. Muitas vezes o médico precisa do apoio da parceira do paciente, para ajudar a convencê-lo a fazer a cirurgia, pois alguns resistem e se opõe, mesmo correndo risco de vida. É de muita ajuda para o homem escutar da esposa que é mais importante ver o marido vivo e bem. Que o relacionamento é mais do que o ato físico na relação sexual. A esposa facilita bastante o processo de aceitação da cirurgia por parte do homem que está resistente.
Quando o paciente já está na meia idade, que em geral é a fase em que o câncer de próstata se manifesta mais, a performance sexual pode estar diminuída por causas vasculares, alterações hormonais ou efeitos colaterais de medicações. Outra questão bastante pertinente que não deve ser omitida, é a constatação de que à medida em que o homem envelhece, conforme Masters e Johnson (1984), particularmente após os 60 anos, a resposta sexual torna-se mais lenta, a ereção, penetração e ejaculação demoram mais para acontecer. O período refratário também se estende após os 50 anos. Homens que estavam acomodados em um relacionamento monogâmico ou solteiros, desta faixa etária, sentem uma perda de potencial para a intimidade sexual. Sentem-se embaraçados e com medo de enfrentar a mulher. Muitas vezes esta parceira de tantos anos também está acomodada, sentindo-se exigida, a partir de então, a mudar seu comportamento sexual com o marido. Esta é uma das situações de maior freqüência vivida por casais de meia idade, sendo muitas vezes bastante difícil de tratar, pela resistência à mudança de atitudes pela parceira. Ser parte de uma forte díade pode servir como fator atenuante, facilitando no acerto à esta situação.Com relação ao fortalecimento das relações amorosas, Kaplan (1974) sugere que os casais devem aprender as formas de utilizar as diferenças e mudanças, no intuito de solidificar a intimidade. Com isso haverá um aumento do prazer e da satisfação que cada um pode dar ao outro.
É portanto, primordial o papel do médico, no sentido de estar atento ao paciente que não trás suas preocupações com a função sexual e mesmo com outras preocupações que possam surgir, frente o diagnóstico de câncer. Estes importantes detalhes não podem passar desapercebidos, deixados de lado sem serem falados. Devem receber a devida atenção para não se transformarem em obstáculos psicológicos, provocando como conseqüência a depressão. A depressão instalada pode agravar ainda mais os problemas sexuais, provocando a perda da libido.
Poder contar com a ajuda da parceira é outra possibilidade enriquecedora, pois esta também proporciona ao companheiro conscientizar que a relação sexual é importante, mas sua vida vem em primeiro lugar. De que eles juntos enfrentarão todos os problemas e resolverão de forma tranqüila. É necessário que o homem que não tem parceira, possa encontrar outras maneiras para se tornar íntimo e criar clima de aproximação com as mulheres. Quando o intercurso sexual não é possível, os casais devem enriquecer seus relacionamentos de outras formas criativas. O casal deve discutir e explorar novas modalidades e variedades de prazer. As relações conjugais serão enriquecidas à medida em que o casal puder adaptar-se, de forma generosa e sensível às mudanças.
É importante que possa ser oferecida esta ajuda para a disfunção sexual cedo, incluindo o uso de medicações orais, substâncias vasoativas e vacuo. Um trabalho conjunto entre oncologista, radioterapeuta oncológico, urologista e psicólogo, são necessários para a otimização e melhora da terapia do câncer.
Literatura sugerida:
Kaplan, HS. A Nova Terapia do Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p.121, 258.
Masters, WH, Johnson, VE. A Resposta Sexual Humana. São Paulo: Roca, 1984, p.206.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
Ejaculação Rápida, Angustia e suas Consequências
EJACULAÇÃO RÁPIDA, ANGUSTIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Com insatisfação crônica, conflitos e raivas gerados pelas constantes frustrações que advém da ejaculação rápida, o casal pode começar a evitar a intimidade sexual e consequentemente com isso, afetar também a ereção. Este ciclo vicioso pode piorar para o ejaculador rápido, que já possui uma tendência a ser ansioso a respeito de sua performance sexual. E é exatamente esta ejaculação rápida que reforçará a angústia do homem. Cada experiência negativa vai reforçando o sentimento de incapacidade, gerando mais angustia. É impossível para o homem obter ereção se o nível de angústia chega a este ponto.
Angústia e ansiedade não são sinônimas, de acordo com Dejours (1988, p. 22). A angústia seria uma reação do corpo e a ansiedade uma reação unicamente psíquica. Para Lange e James (apud DEJOURS, 1884-1885), “as manifestações somáticas da angústia não são o resultado, mas a própria causa desta vivência. A angústia seria a percepção confusa que tem o sujeito das perturbações biológicas que se passam nele face a uma situação de perigo”. Portanto, medicações bloqueadoras dos receptores adrenérgicos são muito eficazes para impedir o desencadeamento de estimulações neurovegetativas. Dejours enfatiza ainda que há autores que entendem que um trauma psíquico seria a causa das manifestações somáticas da angústia. “Estas respostas somáticas estariam em relação com a ativação dos resíduos filogenéticos, de respostas arcaicas, essencialmente comportamentais, destinadas a preparar o sujeito ameaçado para enfrentar a situação” (p. 23).
A ER muitas vezes é um transtorno crônico em que o paciente não procura auxílio imediato. Quando não adequadamente avaliado, os pacientes podem ser diagnosticados como portadores de Disfunção Erétil (DE), o que pode retardar o tratamento. É com muita frequência que se observam pacientes com EP primária, que nunca buscaram ajuda, no momento da consulta com o urologista, sentirem-se envergonhados. Na verdade, eles adiaram tanto procurar este auxílio (geralmente por vergonha), que pela preocupação com o seu desempenho, começam a falhar. Só então, extremamente angustiados, buscam auxílio médico. Mas em função da vergonha que sentem por terem de admitir para outro homem uma dificuldade sexual, não explicam a origem de sua disfunção. Alegam que começaram a perder a ereção e não sabem por que, nem quando começou. Médicos que acreditam que muitos problemas sexuais têm origem psicológica, encaminham pacientes com este tipo de queixa para uma avaliação com psicólogos. Outros simplesmente medicam o paciente com uma medicação oral para a ereção, tirando com isso a possibilidade de tratar realmente a causa do problema.
Hatzimouratidis e Hatzichristou (2007) chamam atenção sobre a necessidade de se explicar ao paciente que perder a ereção após a ejaculação é normal, pois muitas vezes eles trazem a queixa de que estão perdendo a ereção quando o problema é que ejaculam muito rápido.
Para Cherman (1999), a maioria dos casos de DE começam com queixas de EP. A preocupação com o tempo da ereção, a cobrança da penetração, são comuns e significativos em 96% dos homens, independentemente da idade, em ambos os grupos de pacientes: com DE e EP. Para esta autora, é necessário que o homem possa livrar-se da preocupação com a virilidade e competição, bem como compreender que o sexo não se limita somente ao desempenho com o falo.
Rodrigues Jr. (2004) chama atenção para a relação existente entre orgasmo e ejaculação, uma vez que a ejaculação acontece nos genitais e o orgasmo no cérebro. A sensação de ejaculação acontecer ao mesmo tempo em que o orgasmo remete às primeiras experiências de ejaculação. Nesta fase (10 – 12 anos), período operatório concreto, a capacidade cerebral é limitada, podendo interferir na capacidade do menino de interpretar o mundo. Ele associará a repetição destas experiências, ejaculação e sensações prazerosas, ao orgasmo. Com isso, muitos homens têm dificuldade em compreender que chegar ao orgasmo e ejacular não acontece necessariamente ao mesmo tempo.
È necessário portanto, para ajudar estes pacientes que o urologista encaminhe para fazer uma avaliação psicológica. O trabalho em conjunto do urologista com o psicólogo é a via mais rápida de tratamento. Na prática sabemos que funciona muito bem aliar a medicação antidepressiva com a terapia sexual.
Referências bibliográficas
CHERMAN, S. K. F. Ejaculação precoce: sintoma ou mito? Revista brasileira de sexualidade humana. Vol. 10, n° 2, 1999, 207-216.
DEJOURS, C. O Corpo. Entre a Biologia e a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
HATZIMOURATIDIS, K.; HATZICHRISTOU, D. Sexual dysfunction: classifications and definitions. Journal of sexual medicine. 2007; 4:241-250.
LANGE E JAMES in DEJOURS, C. O Corpo. Entre a Biologia e a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
RODRIGUES JR, O. M. In: TELÖKEN, C.; DA ROS, C. T.; TANNHAUSER, M. Disfunção Sexual. Rio de Janeiro: Revinter, 2004, 183-191.
Com insatisfação crônica, conflitos e raivas gerados pelas constantes frustrações que advém da ejaculação rápida, o casal pode começar a evitar a intimidade sexual e consequentemente com isso, afetar também a ereção. Este ciclo vicioso pode piorar para o ejaculador rápido, que já possui uma tendência a ser ansioso a respeito de sua performance sexual. E é exatamente esta ejaculação rápida que reforçará a angústia do homem. Cada experiência negativa vai reforçando o sentimento de incapacidade, gerando mais angustia. É impossível para o homem obter ereção se o nível de angústia chega a este ponto.
Angústia e ansiedade não são sinônimas, de acordo com Dejours (1988, p. 22). A angústia seria uma reação do corpo e a ansiedade uma reação unicamente psíquica. Para Lange e James (apud DEJOURS, 1884-1885), “as manifestações somáticas da angústia não são o resultado, mas a própria causa desta vivência. A angústia seria a percepção confusa que tem o sujeito das perturbações biológicas que se passam nele face a uma situação de perigo”. Portanto, medicações bloqueadoras dos receptores adrenérgicos são muito eficazes para impedir o desencadeamento de estimulações neurovegetativas. Dejours enfatiza ainda que há autores que entendem que um trauma psíquico seria a causa das manifestações somáticas da angústia. “Estas respostas somáticas estariam em relação com a ativação dos resíduos filogenéticos, de respostas arcaicas, essencialmente comportamentais, destinadas a preparar o sujeito ameaçado para enfrentar a situação” (p. 23).
A ER muitas vezes é um transtorno crônico em que o paciente não procura auxílio imediato. Quando não adequadamente avaliado, os pacientes podem ser diagnosticados como portadores de Disfunção Erétil (DE), o que pode retardar o tratamento. É com muita frequência que se observam pacientes com EP primária, que nunca buscaram ajuda, no momento da consulta com o urologista, sentirem-se envergonhados. Na verdade, eles adiaram tanto procurar este auxílio (geralmente por vergonha), que pela preocupação com o seu desempenho, começam a falhar. Só então, extremamente angustiados, buscam auxílio médico. Mas em função da vergonha que sentem por terem de admitir para outro homem uma dificuldade sexual, não explicam a origem de sua disfunção. Alegam que começaram a perder a ereção e não sabem por que, nem quando começou. Médicos que acreditam que muitos problemas sexuais têm origem psicológica, encaminham pacientes com este tipo de queixa para uma avaliação com psicólogos. Outros simplesmente medicam o paciente com uma medicação oral para a ereção, tirando com isso a possibilidade de tratar realmente a causa do problema.
Hatzimouratidis e Hatzichristou (2007) chamam atenção sobre a necessidade de se explicar ao paciente que perder a ereção após a ejaculação é normal, pois muitas vezes eles trazem a queixa de que estão perdendo a ereção quando o problema é que ejaculam muito rápido.
Para Cherman (1999), a maioria dos casos de DE começam com queixas de EP. A preocupação com o tempo da ereção, a cobrança da penetração, são comuns e significativos em 96% dos homens, independentemente da idade, em ambos os grupos de pacientes: com DE e EP. Para esta autora, é necessário que o homem possa livrar-se da preocupação com a virilidade e competição, bem como compreender que o sexo não se limita somente ao desempenho com o falo.
Rodrigues Jr. (2004) chama atenção para a relação existente entre orgasmo e ejaculação, uma vez que a ejaculação acontece nos genitais e o orgasmo no cérebro. A sensação de ejaculação acontecer ao mesmo tempo em que o orgasmo remete às primeiras experiências de ejaculação. Nesta fase (10 – 12 anos), período operatório concreto, a capacidade cerebral é limitada, podendo interferir na capacidade do menino de interpretar o mundo. Ele associará a repetição destas experiências, ejaculação e sensações prazerosas, ao orgasmo. Com isso, muitos homens têm dificuldade em compreender que chegar ao orgasmo e ejacular não acontece necessariamente ao mesmo tempo.
È necessário portanto, para ajudar estes pacientes que o urologista encaminhe para fazer uma avaliação psicológica. O trabalho em conjunto do urologista com o psicólogo é a via mais rápida de tratamento. Na prática sabemos que funciona muito bem aliar a medicação antidepressiva com a terapia sexual.
Referências bibliográficas
CHERMAN, S. K. F. Ejaculação precoce: sintoma ou mito? Revista brasileira de sexualidade humana. Vol. 10, n° 2, 1999, 207-216.
DEJOURS, C. O Corpo. Entre a Biologia e a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
HATZIMOURATIDIS, K.; HATZICHRISTOU, D. Sexual dysfunction: classifications and definitions. Journal of sexual medicine. 2007; 4:241-250.
LANGE E JAMES in DEJOURS, C. O Corpo. Entre a Biologia e a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
RODRIGUES JR, O. M. In: TELÖKEN, C.; DA ROS, C. T.; TANNHAUSER, M. Disfunção Sexual. Rio de Janeiro: Revinter, 2004, 183-191.
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